A Semi-final do Campeonato Brasileiro foi disputada pela 1ª vez em São Luís, 1981. É a principal (atualmente a única) prova usada pela Condereção Brasileira de Xadrez como classificatória ao Campeonato Brasileiro Individual Absoluto. A última edição, organizada pela Federação Paulista, foi realizada de 2 a 5 de novembro no Clube de Xadrez São Paulo. Ao seu final, vencida brilhantemente por Diego Rafael Di Berardino, comentou-se (eu mesmo participei da discussão) no CXSP sobre uma 'Maldição da Semifinal', segundo a qual seu campeão estaria fadado a um mau desempenho na Final.
De fato, alguns casos, como o de Cavalcanti em 1988 e Cukier em 1995 foram marcantes. Mas preparando-me para escrever este texto indaquei-me: seria a Maldição uma realidade ou apenas uma impressão deixada por uns poucos casos muito ruins? Durante a discussão no CXSP, Herman lembrou que vencera apenas uma semifinal, mas não lembrou qual foi a Final realizada na seqüência (foram duas em 1995): a de Americana ou a de Brasília. Em Americana Herman teve o seu pior desempenho até hoje. Em Brasília, sagrou-se vice-campeão atrás apenas dum espetacular Milos - nas duas finais disputadas em 1995, Milos venceu ambas cedendo apenas um empate a Pelikian em Americana e tendo apenas uma derrota para Darcy Lima em Brasília, uma performance somada de +20=1-1! Pesquisando, vimos que foi a de Americana: ponto para a maldição.
Nas primeiras quatro edições da Semi a maldição não apareceu. Em 1981, o campeão da semi, Filguth, obteve +5=7-3 na Final, um desempenho de 57%, obtendo a 8ª colocação. Em 1982, Paolozzi foi o vice-campeão com +9=4-2. Em 1983, Hermes Amílcar Machado, obteve sua melhor classificação em um Brasileiro: terceiro, com +8=5-4. Em 1986 (não houve semifinal em 84 e 85), num suíço, Tsuboi obteve +5=4-2, chegando em 5º e classificando-se para a equipe que representaria o Brasil na Olimpíada de Dubai.
Foi no ano seguinte, 1987, que a maldição pode ter começado. O campeão da semi, Paulo Sérgio de Oliveira, não pôde disputar a final, apesar dela ter sido disputada em seu estado, o Rio Grande do Sul. O vice-campeão, Limp teve um mau desempenho na final (+4=5-6), chegando em 12º. Em outras quatro ocasiões o campeão da semifinal não jogou o Nacional: Hermes em 1992, Disconzi e Limp em 2000 (de 2000 a 2002 e também em 2004 foram realizadas duas semifinais), e Limp em 2002. Em 1988, ela alcançou sua força máxima. Cavalcanti empatou apenas uma partida (com Herman, que sagraria-se campeão daquele ano) e perdeu 6 (um aproveitamento de apenas 7%), abandonando então a disputa da prova. Seu abandono aliás (aliado aos prévios de Gouveia e Hélder) deixou o resultado da prova sub júdice - história que merece um capítulo à parte (não a contemos aqui para não fugir muito do tema).
Mas o que deve ser considerado ou não um mau desempenho? Um critério que parece-nos razoável seria considerar como ruim qualquer aproveitamento abaixo de 50%. Isto aconteceu na Final com 9 campeões de semifinal: Cavalcanti, Daniel Góes (1991 - disputado por matches eliminatórios - Góes foi eliminado por Herman na 1ª fase com um empate e uma derrota), Everaldo Matsuura (1994 - o ano refere-se à disputa da fase final, a semi fora em 93), Cukier (1995), Wellington Carlos Rocha (1998, semi em 97), Jorge Wilson Rocha (2003), Roberto Calheiros de Miranda Jr (2005, semi em 2004), Marcus Vinicius Moreira Santos (2005) e, agora, Berardino. Em três ocasiões, 1995 com Herman, 1998 - em matches eliminatórios - com Alexandru Sorin Segal e 2001 com Adriano Lucas Caldeira Marques, o campeão da semi alcançou exatamente 50% na final. Em 12 ocasiões o vencedor da semi ficou acima dos 50% na final: Filguth em 1981, Paolozzi em 1982, Hermes em 1983, Tsuboi em 1986, Sadi Glasser Dumont em 1989, Aron Antunes Corrêa em 1990, Giovanni Portilho Vescovi em 1996 (o melhor desempenho dum campeão da semifinal: terminou a final empatado em 1ª com Leitão e Darcy, com +5=6-0 - ficou como vice-campeão após desempate disputado no ano seguinte, no Rio de Janeiro), Ricardo Benares e Matsuura em 2000 (semi em 99), Matsuura em 2001, Jefferson Pelikian em 2003 e Caldeira em 2004.
No cômputo final temos cinco que não conseguiram jogar a final, nove que tiveram mau desempenho, três indiferentes e doze com aproveitamento acima de 50%. Placar final: dois de vantagem para a 'maldição' (5+9-12). Muito pouco para o termo poder realmente ser usado. O desempenho dos campeões da semi nas finais somado resulta em +82=79-68 (sem contar a participação de Berardino neste ano, ainda em andamento), um aproveitamento de 53% (um pouco acima da metade, portanto). Um dado, porém, salta à vista: virtualmente todos (Vescovi foi o único a passar incólume) os vencedores de semifinal sofreram pelo menos uma derrota. Poder-se-ia, logo, falar duma 'pequena maldição': O campeão da Semifinal não disputará ou não terminará invicto na Final.